quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O que faz um biólogo?

Alunos de biologia não sabem com o que podem trabalhar. Essa é uma das conclusões a que se chega ao ler duas interessantes pesquisas desenvolvidas pelo professor Simão Dias Vasconcelos e seus orientados sobre os alunos dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e de outras universidades da região. Apesar de esses estudos terem sidos desenvolvidos especificamente em Pernambuco, o autor cita outros trabalhos que tiveram alguns resultados semelhantes em Minas Gerais e acredito que em outros estados a situação não seja muito diferente.

Quando perguntado a alunos de bacharel em biologia de três universidades pernambucanas se depois de formados poderiam exercer atividades como ministrar aulas no ensino médio, diagnosticar morte em hospitais e receitar medicamentos veterinários, entre outras, apenas 36,5% das respostas estavam corretas ao dizer que não poderiam exercer essas atividades.

Mais preocupante foi quando perguntado ao mesmo grupo se outras atividades, como realizar análises clínicas, diagnosticar perícias criminais e elaborar relatórios de impacto ambientais, são aptas de um biólogo bacharel. Apenas 55,8% das respostas estavam corretas ao afirmar que tais atividades cabiam a este profissional.

Ao contrário do que parece, acredito que o grande problema aqui não são os alunos e sim os professores. Preocupados quase que exclusivamente com suas pesquisas e artigos científicos, os professores de ciências biológicas pouco sabem sobre mercado de trabalho do biólogo, ao menos que sua pesquisa “esbarre” com algum mercado.

Em outros cursos de graduação é comum encontrar docentes que após se formarem caíram no mercado de trabalho (fora do mundo acadêmico), adquiriram experiência e após alguns anos voltam a academia justamente para passar essa bagagem adquirida a seus alunos.

Na Biologia é raro encontrar esse tipo de docente (eu mesmo durante meus 8 anos de graduação e pós, na UFSCar e UNESP, nunca encontrei um, ou se encontrei não fiquei sabendo). É verdade, encontramos docentes da biologia que abrem empresas ou prestam serviços a algumas, mas dificilmente eles saíram do mundo acadêmico e mais difícil ainda é esse conhecimento ser passado para os alunos.

Bom e o que falar sobre a licenciatura desses Professores? Por serem em primeiro lugar pesquisadores as disciplinas que ministram (uma ou duas por ano) ficam em segundo plano. Muitas vezes as aulas já foram preparadas há alguns anos e o conteúdo mal é reciclado.

O que se espera que um aluno de Ciências Biológicas saiba sobre o mercado de trabalho de um biólogo se durante toda sua graduação os profissionais da área com que teve contato restringiram-se quase que exclusivamente a pesquisadores/ professores?

Os artigos do professor Vasconcelos talvez nos ajudem a responder essa pergunta:

-No curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UFPE 90% dos alunos pretendiam fazer pós-graduação, porém apenas 17,7% na área de educação.

- Em outro artigo 100% dos alunos entrevistados deste mesmo curso visavam a carreira de professor universitário.

-Menos de 20% dos alunos de cursos de Bacharelado em Ciências Biológicas de três universidades pernambucanas pretendiam trabalhar em consultorias e outras ocupações não-acadêmicas.

O professor Vasconcelos sugere duas propostas para diminuir essa defasagem dos alunos. A primeira é incluir na grade do curso uma disciplina que conteúdos relacionados com as atividades profissionais dos biólogos. A outra sugestão é que os próprios professores abordem na sala de aula experiências e práticas que estimulem seus alunos sobre as atividades fora do mundo acadêmico.

Outro mecanismo que ajudaria a melhorar este problema seria as universidades procurem docentes que tenham a experiência do mercado de trabalho. Certamente poucos docentes com esse tipo de know-how mudaria muito o conceito que os graduandos têm sobre o que fazer depois de pegar o diploma de Ciências Biológicas.

Agora, finalizando, fica ao professor Vasconcelos uma pergunta: Qual seria o resultado se as questões, sobre quais atividades são aptas de um biólogo, fossem feitas aos docentes do curso?

Artigos citados:

-Vasconcelos, S. D; Lima, K. E. C. O professor de Biologia em formação: Reflexão com base no perfil socioeconômico e perspectivas de licenciados de uma universidade pública. Ciência & Educação, v.16, n.2, 2010.

-Oliveira, I. B.; Silva, L. O.; Souza, J. M. H. E.; Gomes, J. P; Lucena, L. R. F.; Amaral, W. S.; Vasconcelos, S. D. Avaliação das perspectivas e expectativas de bacharelandos em Biologia: perfil e regulamentação profissional.

2 comentários:

  1. Massa Felipe! Grande iniciativa. Acho que há mesmo uma série de problemas na formação de Biólogos. A formação profissional mais evidente (Licenciatura) cuja profissão é a docência, é pouco valorizada por professores e pelos próprios estudantes. Imagine então o problema do bacharelado, que, mesmo sendo visto como a jóia da universidade, é tão alienado do papel social do Biólogo. Keep on fighting my friend.

    Doug

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  2. Após ler essa postagem fiquei com uma pergunta martelando: qual é mesmo o lugar do bacharel em ciências biológicas no mercado de trabalho? Onde trabalha o biológo (bacharel)?
    Eu não saberia responder isso aos meus alunos de Ensino Médio. Na verdade, os exemplos que teria para citar são: professores (em todos os níveis de ensino), pesquisadores (concursados) e pós-graduandos (é profissão?).

    Sinceramente, eu não saberia onde começar a procurar emprego como biólogo...

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